O PROBLEMA DA ETERNIDADE E A ETERNIDADE DO PROBLEMA


          Com o declínio da cosmovisão tradicional nos últimos séculos, a imortalidade da alma tem estado cada vez mais distante do imaginário popular, transformando a morte em um tabu. Pensar e falar na morte é mórbido e assustador, e sugerir que alguém "se prepare para a morte" é praticamente uma ofensa, um desejo que a pessoa morra.

Funda-se com a ficção científica uma nova mitologia, na qual a Ciência, o novo deus da modernidade, derrotará finalmente a Morte e cumprirá a promessa de vida eterna, que a religião diz cumprir apenas de maneira invisível e misteriosa.

Mas, como diz Flaubert, não se pode tocar muito nos ídolos, pois o ouro pode sair nos dedos. O sonho da imortalidade terrena se mostra um verdadeiro pesadelo, e isso é trabalhado de maneira interessante em duas séries modernas da Netflix (sim, assisti a séries da Netflix, me processe), que são Altered Carbon (2018) e Ad Vitam (2019).

Ambas retratam um futuro relativamente próximo em que a medicina venceu a morte natural, e nos dois casos isso causa dilemas existenciais enormes. O homem tem sede de vida, do infinito, mas isso só pode ser saciado Naquele que é a própria Vida e a Infinitude. Menos que isso é sempre nada. Todos os números estão equidistantes do infinito.

Longe de nos libertar, a vitória sobre a morte natural apenas nos aprisiona no tempo e no mundo, com todas as suas turbulências, dilemas, tentações e sofrimentos, para sempre. Em sua obra “O Imortal”, Jorge Luis Borges joga não com o medo da morte, mas com o enfado da imortalidade, onde nenhum momento é especial e nenhum feito é grandioso.

O drama de alcançar a imortalidade sem Deus é o drama de Babel e de Prometeu. "O homem quer ser divino, mas a divindade é um fardo muito pesado para ombros finitos" (1).

Em Altered Carbon, os imortais se entregam aos prazeres mais sórdidos e baixos para enfrentar o tédio de uma vida que não tem mais sabor algum, e criaram redes tão complexas para escapar da morte que a um deles é negado até mesmo o suicídio (ups, spoilers).  Já em Ad Vitam, além de jogar na mistura o problema da natalidade e da superpopulação (já que as pessoas não morrem mais), a imortalidade é posta não como um grande apego à vida, mas um medo terrível da morte, onde se torna necessário uma espécie de "psicólogo" para atender pessoas que perderam algum ente querido, já que ninguém mais sabe lidar com isso de maneira normal. Aqui também as pessoas escapam das garras de Tânatos para cair nas de Mania.

A morte, no fim das contas, é sempre um mistério que deve ser aceito com esperança. Terrível e assustadora, ela é quem iguala todos os homens e dá sentido à vida. Ela não pode ser vencida aqui, apenas na eternidade, e enquanto isso não for entendido, as pessoas continuarão apegadas a esse “ersatz” de vida eterna e deixando de lado a verdadeira Vida. As duas séries retratam pessoas religiosas que se recusam a fugir da morte. Seja dando ares de ingenuidade ou de transcendência, é somente a religião que consegue dar as forças para o homem aceitar esse destino que é a um só tempo fim e começo.

Lembrando que, mesmo na ficção científica, a imortalidade esbarra no problema do tempo. Podemos fantasiar o quanto quisermos, mas é possível apenas correr, jamais se esconder, como aparece no saturnino A Última Pergunta, de Isaac Asimov: "dez bilhões de anos não é para sempre."

(1) Padre Leonel Franca, A Crise do Mundo

Autor do texto: Orfeu